Inteligência Artificial entrou no contexto das agressões virtuais
07/04/2026
Os registros de 2025 ficaram próximos dos de 2019, quando
foram computados os menores números de violações ao trabalho jornalístico.
Naquele ano, foram 56 casos, envolvendo pelo menos 78 profissionais e veículos
de comunicação.
Em 14 anos de monitoramento dos casos de violência contra os profissionais da mídia, pela quarta vez não houve registro de assassinato de jornalistas brasileiros pelo exercício da profissão. Além de 2025, apenas em 2019, 2021 e 2024 a imprensa brasileira não sofreu violência letal. De acordo com o levantamento da ABERT, as agressões físicas voltaram a liderar os registros de violações ao trabalho jornalístico, representando 39% do total. Foram 26 casos contabilizados, envolvendo pelo menos 35 profissionais, um aumento de 11,5% e 20%, respectivamente, em relação ao ano anterior.
A violência contra jornalistas ocorreu em várias cidades
brasileiras, mas a região Sudeste liderou o ranking, com 38% dos casos, seguida
pelo Centro-Oeste e Nordeste, com cinco registros cada. Os homens foram as
maiores vítimas, e os profissionais de emissoras de TV foram o grande foco dos
agressores, insatisfeitos com a cobertura jornalística.
Os políticos e ocupantes de cargos públicos foram os
principais autores das agressões, seguidos de torcedores ou integrantes de
times de futebol. As intimidações estão na sequência, com 10 registros,
envolvendo pelo menos 11 comunicadores, um aumento de 40% e 45,5%, quando
comparado com 2024. As detenções também fizeram parte das estatísticas em 2025.
Pela primeira vez desde 2019, dois casos foram registrados nas regiões Norte e
Sul do país.
Uma das formas de tentar intimidar o trabalho da imprensa é
a ameaça. Nem sempre os casos são relatados e não podem ser minimizados. Em
2025, seis casos foram registrados, uma redução de 33% em relação a 2024. Na
maioria dos relatos, houve ameaça de morte. Os profissionais de sites e de TV
em coberturas locais foram os principais alvos.
O estudo apresenta ainda outros tipos de ataques e violações
à liberdade de expressão no Brasil, como um caso de atentado registrado em
2025, quatro casos de furtos de celulares e equipamentos das equipes que
estavam nas ruas, um caso de ato obsceno, e seis de injúria.
Os registros de censura voltaram a acontecer, com um aumento
de 57% em relação ao ano anterior. Com exceção da Região Sul, equipes de
reportagem foram impedidas de realizar coberturas nas outras quatro regiões
brasileiras.
Políticos ou ocupantes de cargos públicos foram os
principais autores. “O Relatório da ABERT oferece uma oportunidade de reflexão
sobre a relevância da liberdade de imprensa, pilar essencial das sociedades
democráticas fortes e consolidadas, e o papel inegociável do jornalismo
profissional de ética e responsabilidade social.
Apesar da redução no número de casos e de vítimas
envolvidas, a imprensa continua sendo foco da intolerância ao contraditório,
com ataques verbais, campanhas de ódio e assédio a jornalistas. Enquanto houver
um único jornalista agredido em sua missão de informar, a liberdade de imprensa
está em risco, assim como a democracia”, afirma Lobato Flôres.
Como nos anos anteriores, as decisões judiciais têm uma análise à parte e não entram na contagem de casos de violência não letal. Em 2025, foram proferidas 15 decisões judiciais, uma redução de 26,67% em relação ao ano anterior. Do total, sete foram favoráveis e oito contrárias à imprensa. A retirada do ar de reportagens ou citação de nomes, geralmente dos alvos das matérias, continua sendo o recurso mais comum na justiça. Também os ataques virtuais estão em um capítulo à parte.
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Ataques virtuais - Levantamento da Bites – empresa de análise
de dados para decisões estratégicas – revela que, na apuração geral, ao longo
de 2025, foram registrados 900 mil ataques contra a imprensa, o equivalente a
quase 2,5 mil agressões por dia (2.465) ou quase duas por minuto (1,7).
O crescimento de 35% em relação ao período anterior
aconteceu após quedas sucessivas desde 2019 – ano em que chegaram a 3,2 milhões
de menções. Em 2024, foi registrado o menor volume desde o início da medição
feita pela Bites para a ABERT, quando ficou em 666 mil publicações. Os termos
"lixo", "podre", "velha", "canalha" e
"golpista" voltaram a ser associados à mídia, aos jornalistas e ao
jornalismo.
Em parte, esse novo pico originou-se diretamente de
publicações de perfis inconformados com a condenação dos participantes das
ações em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. A novidade do levantamento deste
ano é o uso de serviços de inteligência artificial na construção de uma
percepção negativa sobre o papel da mídia profissional.
A Bites analisou o padrão de perguntas feitas ao longo do
ano passado em quatro IAs (ChatGPT, Claude, Gemini e Grok) para entender o que
os críticos do trabalho da imprensa gostariam de saber dessa nova fonte de
informação. Esses serviços recebem 332 milhões de visitas por mês no Brasil; o
ChatGPT é o maior de todos, com 266 milhões de acessos mensais.
Quando são feitas perguntas nessas plataformas sobre a mídia
brasileira em geral, o questionamento mais comum refere-se ao posicionamento
ideológico dos veículos de comunicação: “A imprensa brasileira tem lado?” é a
dúvida mais recorrente às IAs. Também surgem abordagens associadas a essa
tendência, envolvendo a decisão da mídia em enfatizar determinado assunto em
detrimento de outro que seria do interesse dos usuários das plataformas de IA.
“Nesse contexto, em uma abordagem direta, as próprias IAs respondem que perfis
com maior proximidade ao campo da direita ou centro-direita são os principais
questionadores do papel da mídia na sociedade brasileira”, afirma o
diretor-executivo da Bites, Manoel Fernandes.
O Brasil no mundo -
No cenário mundial, o Brasil melhorou sua posição no ranking global de
liberdade de imprensa. De acordo com a organização Repórteres sem Fronteiras,
entre os 180 países pesquisados, o Brasil está na posição de número 63,
confirmando as expectativas de um quadro mais favorável para o exercício do
jornalismo.
Vale lembrar que, em 2021, nosso país estava na chamada zona
vermelha da lista, ocupando a posição de número 111. Organizações
internacionais que atuam em defesa da liberdade de imprensa apontam a
normalização da relação entre jornalistas e o Poder Executivo após o fim do
último governo como um dos fatores para a diminuição das agressões contra a
imprensa no país. Já a UNESCO chama a atenção para o número de mortes de
jornalistas em todo o mundo.
Entre 2006 e 2025, mais de 1,8 mil profissionais da imprensa
foram mortos, e cerca de 90% dessas mortes permanecem sem solução. O Relatório
da ABERT pode ser acessado AQUI
Repórter: ABERT