Jornalismo profissional: nem todo mundo que publica notícia faz jornalismo

O jornalismo profissional continua sendo um trabalho que exige método, responsabilidade e compromisso

03/08/2026


  • Coordenadora de Jornalismo GCD, Cristiane Faustino e diretor do Grupo, Humberto Ohf de Andrade


Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil publicar uma informação. Em poucos segundos, qualquer pessoa consegue escrever um texto, gravar um vídeo ou compartilhar uma "notícia" para milhares de pessoas. A democratização da comunicação é um avanço. Confundir isso com o jornalismo profissional, porém, é um enorme retrocesso. Dá, sim, para chamar de desserviço. Publicar não é apurar. Compartilhar não é verificar. Os seguidores não transformam ninguém em jornalista.

O jornalismo profissional continua sendo um trabalho que exige método, responsabilidade e compromisso. Exige ouvir mais de um lado, confirmar dados, desconfiar da primeira versão dos fatos e, muitas vezes, aceitar o desconforto de chegar depois porque a “verdade” ainda não estava pronta. Enquanto isso, boa parte do mercado descobriu um modelo de negócio muito mais barato: esperar alguém fazer todo esse trabalho e, minutos depois, copiar o conteúdo. Quando muito, trocam meia dúzia de palavras, alteram o título, colocam uma foto diferente e seguem em frente. A fonte? Se aparecer, estará escondida no fim da matéria, em letras discretas, quase como um pedido de desculpas.

É um modelo interessante. Uns investem em jornalistas, estrutura, equipamentos, deslocamentos, salários, encargos e horas de apuração. Outros investem no tradicional Ctrl+C e Ctrl+V. A conta fecha. Pelo menos para quem não produz absolutamente nada. O mais curioso é que muitos desses veículos ainda se apresentam como referência em informação. Afinal, se alguém fez todo o trabalho antes, por que gastar dinheiro produzindo? Basta esperar, a internet entrega o restante.

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Há outro hábito que também merece reflexão: transformar releases oficiais em notícias prontas. O comunicado chega, recebe um título diferente e vai direto para publicação, como se documento oficial fosse sinônimo de verdade absoluta. Não há questionamento, contraponto ou contexto. Apenas reprodução. Nesse ritmo, a função do jornalista deixa de ser apurar e passa a ser copiar. Convenhamos: para isso, realmente não é preciso uma redação.

Existe ainda um fenômeno mais preocupante: o chamado jornalismo sem responsável. Perfis anônimos, páginas sem identificação, marcas sem rosto e canais que publicam acusações, versões e boatos sem que ninguém assine, responda ou assuma as consequências. Quando acertam, comemoram. Quando erram, simplesmente apagam a publicação. Como se a desinformação também pudesse ser deletada.

No Grupo de Comunicação Difusora, fazemos outra escolha.

Preferimos perder alguns minutos para confirmar uma informação do que ganhar alguns cliques publicando algo sem checagem e apuração. Preferimos ligar novamente para uma fonte, ouvir outro lado e revisar um texto, quantas vezes for necessário, antes de colocá-lo no ar. Preferimos reconhecer o trabalho de outro veículo quando utilizamos sua apuração, citando a fonte de forma clara, dentro do texto, como manda a ética profissional. Também não tratamos releases como sentença definitiva. Todo comunicado é um ponto de partida, nunca um ponto final. Nossa obrigação continua sendo a mesma: perguntar, confrontar, verificar e contextualizar.

Talvez isso explique por que nossa equipe acumula reconhecimentos e premiações ao longo dos anos. Mas, acima de tudo, explica por que seguimos acreditando que credibilidade não se conquista com velocidade, e sim com responsabilidade. Num tempo em que qualquer celular publica e qualquer perfil opina, o diferencial deixou de ser quem fala primeiro. O diferencial é quem responde pelo que publica.

E isso tem nome, sobrenome, CPF, CNPJ e, principalmente, compromisso com a verdade.

Esse continua sendo o verdadeiro jornalismo profissional.

Repórter: GCD

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