Carros conectados ampliam os dados sobre o consumo de rádio e reforçam a disputa por espaço nas centrais multimídia
Tecnologia permite acompanhar emissoras sintonizadas, duração da escuta e formas de recepção nos veículos, mas não representa uma medição de audiência
05/11/2026
Fonte: Magnific
A evolução dos carros conectados está abrindo uma nova frente de informações para as emissoras de rádio. Sistemas integrados aos veículos já conseguem registrar qual estação foi selecionada, onde e quando ocorreu a sintonia, por quanto tempo ela foi mantida e até qual tecnologia entregou aquele conteúdo. Esse avanço permite observar com maior precisão o comportamento de escuta dentro do automóvel, mas também reforça uma distinção importante: acompanhar o que acontece com o receptor não significa necessariamente medir quantas pessoas estavam ouvindo naquele momento. Ao mesmo tempo, esses dados ganham importância em um ambiente no qual o rádio passou a dividir a tela das centrais multimídia com aplicativos, serviços de streaming e outras fontes de áudio.
O assunto ganhou novo destaque na edição nº 228 do La Lettre Pro de la Radio, publicada nesta terça-feira (3). A publicação francesa entrevistou Jean-Éric Valli, presidente da Radioplayer France, sobre uma ferramenta desenvolvida para acompanhar a utilização do rádio em carros conectados. Segundo Valli, o sistema permite compreender como o meio está sendo consumido dentro dos veículos, mas não deve ser confundido com uma pesquisa tradicional de audiência. "Não se trata de uma medição de audiência, mas de uma medição de escuta, é muito diferente. Não podemos dizer quantas pessoas ouvem rádio no carro, mas como o rádio é consumido", afirmou. A ferramenta citada pelo executivo é o módulo In-Car do Radioplayer Insight, anunciado oficialmente em 24 de setembro. De acordo com a empresa, os dados provenientes dos sistemas automotivos são processados em questão de minutos e permitem visualizar onde e quando determinada emissora foi selecionada, durante quanto tempo ocorreu a escuta e se a entrega foi realizada por FM, DAB ou streaming via IP. A tecnologia também identifica o meio utilizado para entregar o áudio ao sistema do veículo. As informações foram detalhadas em comunicado técnico divulgado pelo Radioplayer. No anúncio realizado em setembro, o Radioplayer informou que sua tecnologia já estava integrada aos sistemas de rádio de 19 marcas de automóveis e que a conexão dessas experiências ao novo módulo de análise havia começado. A informação, porém, não significa que todos os veículos ou modelos das 19 fabricantes estejam enviando dados para a plataforma. A empresa também não detalhou naquele comunicado a frota efetivamente coberta pelo levantamento, enquanto novas integrações com fabricantes deverão ampliar o alcance do sistema ao longo do tempo. Saber como o rádio é utilizado não significa medir pessoas A diferença entre dados gerados pelo veículo e uma pesquisa de audiência é especialmente importante para a interpretação dessas informações. Um automóvel conectado pode registrar que determinado receptor permaneceu sintonizado em uma emissora durante um período, mas esse dado, isoladamente, não informa quantas pessoas estavam dentro do carro, quem efetivamente prestava atenção ao conteúdo ou as características demográficas desses ocupantes. Essa mesma discussão foi abordada recentemente pelo tudoradio.com ao repercutir uma análise da Nielsen sobre a utilização de dados provenientes de carros conectados nos Estados Unidos. A empresa de medição destacou que informações extraídas dos veículos podem indicar em qual emissora determinada central multimídia estava sintonizada, mas não necessariamente identificar motoristas, passageiros ou quantas pessoas estavam expostas à programação. Também existem questões relacionadas à representatividade da frota coberta por cada tecnologia. Isso não reduz a utilidade dos dados automotivos, mas delimita o tipo de informação que eles oferecem. Para uma emissora, acompanhar os locais onde a sintonia ocorre, sua duração, horários e a forma utilizada para receber o conteúdo pode ajudar a compreender padrões de utilização do rádio no carro e o comportamento do próprio sistema conectado. Já transformar essas informações em alcance de pessoas ou perfil de audiência exige metodologias adicionais de mensuração.
Quer receber notícias da ACAERT? Assine a newsletter - Assine aqui e receba por e-mail O rádio também precisa ser encontrado no painel A disponibilidade dessas informações ocorre justamente quando a experiência de áudio dentro do carro passa por uma transformação mais ampla. As centrais multimídia atuais concentram diferentes alternativas de entretenimento e informação, fazendo com que a presença física de um receptor de rádio deixe de representar, sozinha, garantia de visibilidade para as emissoras. Esse ponto apareceu de maneira recorrente durante a cobertura do IBC2026 realizada pelo tudoradio.com em setembro, em Amsterdã. Em fórum dedicado ao futuro do rádio no automóvel, representantes do setor europeu destacaram que o meio continua tendo peso relevante nesse ambiente, ao mesmo tempo em que novas arquiteturas digitais dos veículos exigem ações para preservar o acesso direto à radiodifusão. Pesquisa apresentada no evento, realizada com oito mil compradores ou arrendatários de veículos em seis mercados, apontou que 83% dos entrevistados ouviam rádio no carro e 62% consideravam o recurso indispensável no veículo. A discussão vai além da presença do receptor. Conforme já acompanhado pelo tudoradio.com, sistemas automotivos definidos cada vez mais por software colocam diferentes serviços de áudio dentro de uma mesma interface. Nesse cenário, o rádio precisa aparecer entre as opções disponíveis, ser facilmente encontrado e oferecer uma experiência de sintonia simples. Essa preocupação motivou, inclusive, movimentos internacionais voltados à manutenção da proeminência do rádio nos carros conectados. No Brasil, iniciativas voltadas à presença do rádio nas centrais multimídia também vêm avançando. É o caso do APP Tudo Rádio, que passou a contar com compatibilidade com o Apple CarPlay em 2024, permitindo o acesso às emissoras via streaming diretamente na interface de veículos compatíveis. A plataforma reúne rádios de diferentes regiões do país e oferece recursos como listas de favoritas, identificação de emissoras locais e navegação entre estações, em uma experiência semelhante à sintonia tradicional. O aplicativo também recebeu atualizações em 2026, com melhorias de desempenho e na utilização em ambientes automotivos. É justamente nesse ponto que os dados de utilização passam a acrescentar uma nova camada à discussão. Além de saber se o veículo possui rádio, torna-se possível observar como essa opção é efetivamente utilizada em sistemas compatíveis com esse tipo de coleta. Informações sobre seleção das emissoras, duração da escuta e tecnologia utilizada podem ajudar o setor a compreender melhor o comportamento do rádio dentro de uma interface em que diferentes fontes disputam a atenção do motorista. Rádio híbrido, DAB e Rádio 3.0 são conceitos diferentes O avanço dos sistemas automotivos também exige atenção às diferentes tecnologias e conceitos envolvidos. O DAB e sua evolução DAB+ são padrões de radiodifusão digital terrestre adotados em diferentes mercados internacionais. Já o rádio híbrido combina a recepção do sinal terrestre com conectividade via internet, permitindo acrescentar recursos como logotipos, imagens, metadados e outras informações à experiência oferecida pelo receptor. No Brasil, diferentes iniciativas relacionadas ao rádio híbrido vêm sendo acompanhadas pelo tudoradio.com, mas isso não significa a implantação do DAB no país. O conceito de Rádio 3.0, por sua vez, é mais abrangente. Conforme apresentado durante o Aerp Day no IBC2026, ele considera o áudio ao vivo como matriz de um ecossistema que inclui FM, streaming, aplicativos, rádio híbrido, RDS, smart speakers, Android Auto, Apple CarPlay, rádio visual e outras formas de distribuição e relacionamento com a audiência. Dessa forma, rádio híbrido e sistemas automotivos são componentes possíveis dessa estratégia multiplataforma, e não sinônimos do Rádio 3.0. No mesmo debate realizado em Amsterdã, a presença das emissoras nos automóveis recebeu atenção justamente porque smartphones, aplicativos e diferentes plataformas passaram a ocupar a mesma área de interação disponível ao motorista. Também foi informado na ocasião que a ABERT mantém discussões com a ANFAVEA sobre carros conectados e a proeminência do rádio nas telas dos veículos brasileiros. A edição nº 228 do La Lettre Pro também abordou a transformação mais ampla dos hábitos de consumo de áudio na França. Emmanuelle Le Goff, diretora de Rádio e Total Audio da Médiamétrie, tratou da convivência entre rádio, podcasts e suportes digitais, além da evolução das formas utilizadas para acompanhar esses consumos. O contexto francês reforça uma transformação observada no áudio: diferentes modalidades de conteúdo e dispositivos passam a coexistir, aumentando também a necessidade de compreender separadamente como cada uma delas é utilizada.