Levantamento nos Estados Unidos revela dificuldade do público em identificar conteúdos produzidos por inteligência artificial e destaca o desafio da transparência nas emissoras
09/07/2026
FOTO: Magnifc
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos indica que a maioria dos ouvintes de rádio tem dificuldade para distinguir uma locução produzida por inteligência artificial de uma gravação feita por um profissional. O levantamento também aponta que boa parte do público não vê problemas na adoção dessa tecnologia pelas emissoras, embora a transparência sobre o uso da IA continue sendo um fator relevante para a percepção dos ouvintes. O mercado também já observa uma reação de grupos de rádio em outras frentes, como campanhas que dizem "garantir a comunicação humana nas emissoras" e especialistas já alertaram que os comunicadores representam um dos principais diferenciais competitivos do rádio, chamando a atenção para os riscos de cortes nas equipes.
O estudo em questão foi conduzido pela Crowd React Media, divisão da Harker Bos Group, entre os meses de maio e junho, com a participação de 1.326 ouvintes de rádio que acompanham o meio semanalmente. O objetivo foi avaliar como o público percebe vozes geradas por inteligência artificial em comparação com locuções humanas profissionais. Os dados foram repercutidos pela mídia especializada norte-americana, como o portal RadioINK.
De acordo com a mídia local, para a pesquisa foram produzidas duas peças de áudio: uma campanha institucional sobre uma promoção de cartões de combustível e outra com uma mensagem de conscientização para o Dia das Mães. Cada roteiro recebeu duas versões: uma narrada pelo locutor profissional Neil Wilson e outra recriada por inteligência artificial.
Os participantes, com idade entre 18 e 45 anos, foram divididos em dois grupos. Metade ouviu as versões gravadas por um locutor, e a outra metade recebeu os mesmos conteúdos gerados por IA, sem qualquer identificação prévia da origem da voz. Os resultados mostraram que 59% dos entrevistados que ouviram a locução humana acertaram ao identificar que se tratava de uma voz real. Já entre aqueles que ouviram a versão produzida por inteligência artificial, 55% acreditaram que a gravação também havia sido feita por um locutor humano.
Além da identificação, a pesquisa avaliou aspectos como profissionalismo, autenticidade, credibilidade, energia e simpatia das vozes. Em praticamente todos os critérios, as diferenças entre as versões humana e artificial ficaram dentro da margem estatística, indicando desempenho semelhante. No índice geral de aprovação da primeira peça, a locução humana obteve 60%, enquanto a versão criada por IA registrou 61%.
A única diferença considerada estatisticamente significativa apareceu no atributo relacionado ao humor. Entre os ouvintes que escutaram a locução humana, 33% classificaram a voz como divertida, contra 26% dos que ouviram a versão gerada por inteligência artificial.
A pesquisa também investigou como os ouvintes reagem ao saber que uma emissora utiliza vozes produzidas por IA. Nesse cenário, 47% afirmaram que essa informação não altera sua percepção sobre a rádio. Outros 21% disseram que passariam a enxergar a emissora de forma mais positiva, enquanto 33% afirmaram que a avaliação se tornaria menos favorável.
Quando questionados de forma mais ampla sobre o uso de vozes geradas por inteligência artificial na publicidade e na mídia, 44% demonstraram uma percepção positiva, 30% mantiveram posição neutra e 26% declararam opinião negativa.
Os comentários espontâneos dos participantes revelaram percepções distintas após a revelação da origem das locuções. Entre aqueles que ouviram a versão humana, muitos afirmaram sentir maior valorização ao descobrir que havia um profissional por trás da gravação. Alguns relataram que permaneceriam ouvindo a emissora justamente por manter locutores reais.
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Já entre os participantes expostos às vozes sintéticas, as críticas concentraram-se principalmente na questão da confiança. Parte dos entrevistados afirmou que o uso da inteligência artificial poderia transmitir a sensação de falta de transparência por parte da emissora. Em contrapartida, outros destacaram a naturalidade da locução e classificaram a tecnologia como inovadora. Houve ainda quem defendesse o uso da IA apenas em chamadas rápidas, vinhetas e comerciais, mas não na substituição de comunicadores que ocupam espaços regulares na programação.
O uso da voz sintética precisa de transparência
Para Katie Miller, fundadora da Crowd React Media, os resultados sugerem que o principal desafio para o rádio não está necessariamente na qualidade das vozes geradas por inteligência artificial, mas, sim, na forma como as emissoras comunicam esse uso ao público.
Entre os ouvintes que escutaram a locução humana, 48% passaram a avaliar o conteúdo de maneira mais positiva após descobrirem que a gravação havia sido feita por uma pessoa, enquanto apenas 4% disseram ter mudado de opinião negativamente. No grupo que ouviu a versão produzida por IA, 25% relataram melhora na percepção após a revelação, contra 20% que passaram a enxergar o conteúdo de forma menos favorável.
"Guaranteed Human" vs. avanços da IA
Os resultados ampliam o debate sobre a adoção da inteligência artificial no rádio norte-americano. Enquanto a iHeartMedia transformou a utilização exclusiva de profissionais humanos em um diferencial de mercado por meio da campanha "Guaranteed Human", com essa mensagem presente em spots e vinhetas entre as músicas, baseada em pesquisas internas que apontam a preferência dos consumidores por conteúdos produzidos por pessoas, outras empresas seguem investindo em soluções baseadas em IA.
Um dos exemplos é a Entravision, que desde 2025 utiliza na Jose 97.5 (KLYY), de Los Angeles, a personagem Coyotec, apresentada como a primeira coapresentadora de rádio latina criada por inteligência artificial. A empresa afirma que a iniciativa, ao lado da comunicadora Geraldine "GeeGee" Guzman, contribuiu para um crescimento de 75% na audiência semanal entre homens hispânicos de 25 a 54 anos entre março e abril deste ano.
O tudoradio.com também mostrou um crescimento de audiência em canais de rádio subutilizados que passaram a contar com conteúdo gerado por automações totalmente realizadas por inteligência artificial, caso da KZON 94.9 FM, de Phoenix (Arizona), e também da KZON-HD2 101.5 FM.
E no final do ano passado, em meio a um cenário de cortes orçamentários e constantes reestruturações no setor de radiodifusão, especialistas em programação reforçam a importância de preservar comunicadores no ar, destacando que personalidade, autenticidade e conexão humana são os principais diferenciais competitivos do rádio. O alerta foi feito durante o último CRS360 Audio Avengers: Radio Superpower Is Talent.
Repórter: TudoRádio