
Já escrevi que o problema central do episódio envolvendo o uso de inteligência artificial por uma colunista da Folha de São Paulo não era a ferramenta em si, mas a ausência de regra clara e pública sobre seu uso. A tecnologia já está nas redações. O que não pode ser tratado como opcional é a transparência sobre como a IA participa da construção do texto.
Em novo artigo sobre o caso, com o título “Quem paga pelo jornal quer saber se está lendo coluna ou resultado de prompt”, a ombudsman Alexandra Moraes retoma o tema e o amplia ao registrar algo que deveria ser óbvio, mas precisou ser dito:
“Seja como for, é razoável que os assinantes queiram saber se estão pagando para ler textos de colunistas/gente ou resultados de prompt. Se para o jornal não há problema no uso de IA, não deveria haver problema em sua admissão num negócio cujo principal ativo é a credibilidade.”
É básico: se o uso não é problema, o aviso de uso também não deveria ser. Até aqui, ainda estamos no campo da transparência, tema que, como mencionei, já tratei na edição anterior da agenteGPT. O novo texto da ombudsman, porém, escancara uma questão mais ampla e mais delicada: a coerência institucional diante de uma tecnologia que o jornal combate no mercado e incorpora na produção.
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Do que estamos falando?
A exemplo de outros jornais como o New York Times, a Folha
processa a OpenAI por uso indevido de conteúdo jornalístico no ChatGPT e
concorrência desleal. Na ação, movida desde agosto de 2025, o jornal argumenta
que modelos de IA treinados com material jornalístico capturam valor econômico
que pertence aos veículos. Ao mover a ação, a Folha reconhece que estamos
diante de uma tecnologia estruturalmente relevante e não de uma ferramenta como
o Word ou o Chrome.
Quando questionada pela ombudsman sobre a aparente contradição entre essa disputa judicial e o uso interno de IA na produção de textos, a Secretaria de Redação do jornal afirmou:
“Não há relação entre o uso indevido e não autorizado do conteúdo por empresas de IA e a utilização de ferramentas de IA para a produção de textos. No caso de colunistas, ademais de decisão final humana em qualquer conteúdo para publicação, esperam-se argumentação, escrita e estilo originais e pessoais”.
Do ponto de vista jurídico, pode ser até defensável. Mas o debate público diz respeito à reputação. Se a IA altera o modelo de negócio quando está do lado de fora da redação, é legítimo questionar qual é seu impacto quando participa da produção interna. Não para equiparar situações, mas para exigir coerência – e aí o leitor tem razão de cobrar.
Assim como o uso da IA, essa ambivalência da indústria jornalística também é inevitável: um jornal como a Folha precisa proteger seu conteúdo das plataformas e, ao mesmo tempo, utilizar essas tecnologias que processa para manter eficiência e competitividade. Esse “cara ou coroa” não é o problema. O problema é agir como se a situação não exige uma política clara.
Pelo menos, está evidente a necessidade de amadurecer o debate. Não é mais sobre proibir ou permitir. É sobre como gerenciar ou, para usar um termo mais corporativo, como governar.
Mini-guia para adotar a IA
Talvez este momento proporcionado pela Folha e sua falta de
transparência no uso da IA seja de grande utilidade para o jornalismo
brasileiro, especialmente portais e sites de notícias, de todos os tamanhos e
segmentos. Veículos que decidirem incorporar inteligência artificial ao seu
fluxo produtivo precisam fazê-lo de forma assumida, ética e estratégica.
Isso não significa criar um manual burocrático. Significa estabelecer fundamentos. O ideal é fazer isso por meio de um protocolo, algo que agências como Associated Press e veículos como G1 adotam e que eu mesmo já produzi para meus clientes. Uma forma de começar a traçar esse caminho é seguir os itens do mini-guia que compartilho abaixo para adoção responsável de IA em redações.
Veja os principais pilares.
Toda mudança estrutural exige coordenação. A incorporação de IA não pode ficar dispersa entre iniciativas individuais e outras funções do dia a dia. É preciso designar um editor ou núcleo responsável por formular diretrizes, acompanhar práticas e revisar políticas à medida que a tecnologia evolui. Sem liderança, o uso vira fragmentado e fragmentação compromete coerência.
Não é razoável tratar como equivalentes a transcrição de uma entrevista e a geração de estruturas argumentativas para uma coluna de opinião. O protocolo deve distinguir claramente usos operacionais, usos estruturais e limites inaceitáveis. Essa diferenciação é a base de qualquer política clara e madura.
O caso “colunista da Folha usa IA e jornal não avisa leitor”
deixou de ser sobre uma colunista específica, ainda que não duvide que a
ombudsman possa voltar mais uma vez ao tema. O que está em jogo agora é algo
mais estrutural: como as redações vão governar uma tecnologia que, ao mesmo
tempo, desafia seu modelo de negócio e integra seu cotidiano produtivo.
Repórter: Alexandre Gonçalves / Newsletter agenteGPT