Rádio mantém força nos carros e setor europeu amplia mobilização para garantir a presença nos veículos

Fórum no IBC2026 destacou dados de consumo, expansão do DAB+, regulação e o uso do rádio em sistemas de emergência

14/09/2026


Fonte: Magnific

O rádio mantém uma posição de destaque dentro dos automóveis, mas o avanço de novas arquiteturas digitais nos veículos passou a exigir uma atuação mais coordenada do setor para preservar o acesso direto ao broadcast. Esse foi um dos principais pontos do fórum "Broadcast radio's moment: resilient, relevant, irreplaceable", realizado neste domingo (13) durante o IBC2026, em Amsterdã. Dados apresentados durante o encontro reforçaram a importância do rádio no carro, enquanto representantes do setor detalharam iniciativas regulatórias, políticas públicas e aplicações do DAB+ que procuram assegurar a continuidade e a evolução dessa presença. O tudoradio.com realiza uma cobertura multiplataforma do IBC2026 com os apoios da Playlist Software Solutions, ABERT, Aerp, MidiaCom/MS e também da BrasilStream.

A discussão ganhou peso a partir dos dados apresentados por Jacqueline Bierhorst, presidente da WorldDAB. Pesquisa realizada com oito mil compradores ou arrendatários de veículos em seis mercados mostrou que
83% dos entrevistados ouvem rádio no carro, enquanto 62% consideram o rádio um recurso indispensável no veículo e 85% afirmam que sentiriam falta dele caso deixasse de estar disponível. Ao mesmo tempo, o DAB+ já está presente em cerca de 98% dos automóveis novos comercializados na Europa, indicando uma ampla incorporação da recepção digital pela indústria automotiva. O levantamento também apontou que, mesmo com a multiplicação de aplicativos e serviços disponíveis nas centrais multimídia, o acesso simples e direto ao rádio continua sendo valorizado pelos consumidores.

Segundo Jacqueline, a questão central deixou de ser saber se o público ainda valoriza o rádio no carro conectado. "A pergunta não é se os ouvintes valorizam o rádio no carro. Eles claramente valorizam. A questão é garantir que eles continuem tendo acesso ao rádio", afirmou. Ela também destacou que o debate não coloca o broadcast em oposição aos serviços conectados, defendendo que ambos convivam de forma complementar. "Os serviços conectados devem complementar o broadcast, e não substituí-lo", resumiu, ao defender que o acesso gratuito, universal e resiliente ao rádio permaneça preservado no futuro dos veículos.

Digital Networks Act coloca presença do rádio no centro do debate

A discussão ocorre em um momento considerado decisivo para a legislação europeia. Vincent Sneed, Senior EU Policy Adviser da European Broadcasting Union (EBU), apresentou os debates em torno do
Digital Networks Act (DNA), proposta que reorganiza diferentes aspectos da legislação de telecomunicações da União Europeia e que inclui regras relacionadas à distribuição dos serviços de rádio. Pelo texto atualmente em discussão, caso um automóvel possua um receptor de rádio broadcast, ele deverá oferecer também recepção de rádio digital terrestre. Na prática europeia, isso significa que um veículo equipado com FM também deve contar com DAB+.

Para a EBU e outras entidades do setor, porém, essa redação não é suficiente. Sneed relatou ter encontrado recentemente, durante a procura por um automóvel, um modelo cuja central multimídia oferecia praticamente apenas integração com smartphone, sem um receptor convencional de rádio. O exemplo ilustrou a preocupação das entidades, que defendem uma mudança simples, mas considerada estratégica, na legislação. "Queremos passar de 'se houver recepção broadcast no carro' para 'deve haver recepção broadcast no carro'", afirmou. A proposta é fazer com que o Digital Networks Act estabeleça efetivamente a presença do rádio broadcast nos veículos, e não apenas determine as características técnicas do receptor quando ele existir.

Os argumentos apresentados pela EBU também se apoiam no comportamento da audiência. Dados compilados pela entidade em 15 mercados europeus mostram que o alcance semanal do rádio dentro do carro permaneceu praticamente estável entre 2020 e 2024, passando de
57% para 56% no período. No mesmo intervalo, o consumo em casa caiu de 61% para 53%, enquanto a escuta no ambiente de trabalho recuou de 24% para 22%. Para Sneed, o automóvel continua sendo um dos principais ambientes de consumo do meio e sua importância também se evidencia em situações de emergência. O executivo relembrou o apagão que atingiu Portugal e Espanha, além dos incêndios ocorridos no sudoeste da França, para defender que o rádio broadcast permanece como um sistema gratuito, direto e independente de plataformas ou conexões de dados quando outras redes deixam de funcionar.

Política pública teve impacto direto na presença do DAB+

O impacto que decisões regulatórias podem produzir sobre o mercado foi detalhado por David Fernández Quijada, cofundador e diretor de pesquisa da South 180. Segundo ele, o European Electronic Communications Code, legislação anterior da União Europeia, foi determinante para ampliar a presença do DAB+ nos automóveis. Cálculos apresentados durante o fórum indicam que mais de
60 milhões de veículos foram vendidos com DAB+ entre 2019 e 2025, sendo que aproximadamente 30 milhões deles não teriam recebido a tecnologia sem a exigência prevista na regulamentação europeia.

Fernández Quijada utilizou esses números para demonstrar que pequenas mudanças em textos legais podem gerar efeitos concretos sobre milhões de veículos. O mesmo raciocínio foi aplicado aos utilitários leves, categoria que acabou recebendo cerca de 2,9 milhões de receptores DAB+ mesmo sem estar diretamente contemplada pela regra, graças ao compartilhamento de plataformas com automóveis de passageiros. "Compita no conteúdo, colabore na tecnologia e enquadre isso com políticas públicas", resumiu o pesquisador ao defender que emissoras continuem disputando audiência pela programação, enquanto infraestrutura, padrões tecnológicos e políticas públicas criam condições para o desenvolvimento do setor. Durante a apresentação, ele também mostrou o DAB+ Public Policy Toolbox, desenvolvido para reunir experiências regulatórias de diferentes países e servir como referência para mercados que pretendem implantar ou ampliar a radiodifusão digital.

Quer receber notícias da ACAERT? Assine a newsletter - Assine aqui e receba por e-mail

Alertas de emergência passam a operar em escala nacional

O debate sobre resiliência ganhou um exemplo prático na apresentação de Lindsey Cornell, Systems Architect da BBC Digital e presidente do Comitê Técnico da WorldDAB. Ele detalhou o desenvolvimento do
Automatic Safety Alerts (ASA), sistema criado para distribuir alertas de emergência por meio do DAB+, cuja implantação nacional entrou em operação na Alemanha durante o Warntag, o dia oficial de testes dos sistemas de alerta do país. A iniciativa surgiu após as enchentes do vale do Ahr, em 2021, quando diferentes infraestruturas de comunicação ficaram indisponíveis justamente durante a crise.

Segundo Cornell, um dos principais desafios era desenvolver um sistema capaz de alertar apenas a população realmente afetada, evitando notificações indiscriminadas em todo o país. "É preciso direcionar", resumiu, ao explicar que o ASA permite delimitar geograficamente os alertas e despertar apenas receptores compatíveis localizados na área atingida. O sistema utiliza informações do MoWaS, plataforma oficial de alertas da Alemanha, e já conta com
mais de 30 modelos de receptores certificados disponíveis no mercado alemão, enquanto outros países europeus também iniciam avaliações para adoção da tecnologia.

Digitalização também chega às pequenas emissoras

O fórum também discutiu como tornar a digitalização economicamente viável para emissoras de menor porte. Nick Piggott, Project Director da RadioDNS e vice-presidente da WorldDAB, apresentou os resultados do
small-scale DAB no Reino Unido, modelo que mantém integralmente os padrões técnicos do DAB+, mas reduz custos por meio de infraestruturas mais simples e flexíveis. "Todos no ecossistema de rádio devem ter um caminho para o digital", afirmou, ao mostrar como rádios comunitárias, emissoras locais, projetos originalmente online e marcas nacionais menores passaram a encontrar espaço na plataforma digital.

Segundo Piggott, o Reino Unido possui atualmente
108 multiplexes small-scale DAB, responsáveis pela distribuição de 1.152 serviços de rádio, com expectativa de chegar a aproximadamente 150 multiplexes até o final de 2027. Além de ampliar a oferta para pequenas emissoras, o modelo também permitiu que rádios originalmente online passassem a integrar o ambiente broadcast, ampliando sua visibilidade e alcance junto ao público.

Turquia prepara expansão do DAB+

Encerrando as apresentações, Selahattin Başar Alioğlu, especialista do órgão regulador turco RTÜK, mostrou como a Turquia prepara sua própria expansão do DAB+. O país realiza atualmente transmissões experimentais em Istambul, Ancara e Izmir e trabalha em um corredor digital entre Istambul e Ancara, projeto que poderá levar a tecnologia a aproximadamente
30% ou até 40% da população turca. No mercado local, o DAB+ também surge como alternativa à saturação do espectro em FM e como oportunidade para ampliar a entrada de novos operadores.

Segundo o representante da RTÜK, a implantação será gradual e dependerá de quatro pilares: previsibilidade regulatória, infraestrutura sustentável, participação das emissoras e facilidade de acesso para os ouvintes. O caso turco encerrou um fórum que mostrou diferentes estágios de um mesmo movimento observado na radiodifusão internacional: da defesa da presença do rádio nos automóveis à evolução de aplicações voltadas à segurança pública, passando pela ampliação da diversidade de emissoras e pela expansão da cobertura digital em novos mercados. A combinação desses fatores reforçou a mensagem central apresentada ao longo do encontro: manter o rádio
resiliente, relevante e insubstituível também depende das decisões regulatórias e tecnológicas tomadas agora.

Repórter: TudoRádio

Últimas notícias