Para o The New York Times e o empreendedor Mark Cuban, tecnologia falha na entrega de informação confiável
25/03/2026
Foto: Thaís Monteiro
A ameaça da inteligência artificial generativa para o jornalismo é fonte de preocupação constante para o mercado de conteúdo. A busca de informação nas plataformas é o maior caso de uso delas. Conforme o estudo “Generative AI and news report”, publicado em 2025 pelo Reuters Institute, 24% da população usa a IA com esse propósito. Em 2024, o valor era de 11%. O consumo de notícias dobrou de um ano para outro. Hoje, 6% dos entrevistados buscam notícias via IA.
No South by Southwest 2026, o tema foi pauta em debates com empreendedores da mídia e profissionais de veículos. Uma conclusão comum aos debates é a de que a internet deu fim aos custos de distribuição. Agora, a inteligência artificial mina os custos de produção da notícia.
No entanto, o temor em relação a uma possível substituição dos veículos de conteúdo pela IA ainda é injustificado, afirmou o investidor e empreendedor Mark Cuban. Na sua avaliação, a IA trabalha de forma probabilística e estatística e tem uma inteligência comparável a uma criança de dois anos com boa memória que não mede as consequências do que fala ou faz. “Dizer que ninguém vai trabalhar em dois anos é bobagem”, disse.
No mercado de notícias, a IA ainda perde território diante da alta latência de atualização e dificuldade de localização temporal. “Há sempre novas informações que a plataforma não captou”, colocou o empreendedor.
Dentre todos os pontos críticos da IA, desinformação é, para Cuban, a pá de cal na disputa entre modelos de linguagem e veículos jornalísticos. Uma vez que os modelos apresentam informações equivocadas ou incorretas, a confiança depositada pelo consumidor diminui, assim como a recorrência no uso dessa tecnologia.
Para o executivo, por ora, a IA é útil em trabalhos repetitivos, tediosos, burocráticos, para ajudar em estudos, pesquisas aprofundadas e geração de ideias. “Todos me perguntam o melhor funcionários e eu digo que aqueles que reduzem o meu estresse. A IA ajuda a reduzir o estresse para você e todos ao redor. Se está encarregado, é sua responsabilidade nutrir a cultura de experimentação da IA na sua empresa”, afirmou.
IA na produção de conteúdo
A supervisão humana no uso da IA segue como princípio absoluto repercutido em diversos painéis do SXSW quando o assunto abordado era a experimentação da tecnologia em ambiente corporativo. À medida que a expertise técnica se torna mais fácil de substituir, o valor migra para o julgamento humano.
Para se manter à frente da transformação digital, em dezembro de 2023, o The New York Times contratou o jornalista Zach Seward para comandar uma área dedicada a estruturar o uso de Inteligência Artificial na redação. Atualmente, a área é formada por oito colaboradores, entre eles engenheiros, designers, profissionais especializados em produto e jornalistas.

Foto: Thaís Monteiro
A área trabalha o uso de IA em quatro categorias: treinamento e suporte, jornalismo investigativo e pesquisa, bastidores do fluxo de produção e para pensar experiências de consumo de conteúdo futuras.
Na sua apresentação no SXSW, Seward detalhou os usos da IA na produção de conteúdo. São, ao todo, sete usos.
Na categoria “Busca semântica”, a empresa usa a IA para fazer uma busca que não se limita a palavras, mas conceitos e contextos específicos, uma vez que vários termos são utilizados para um mesmo significado.
Em “Mudanças de meio”, o jornal utiliza a IA para converter dados de um formato para outro, como vídeos em texto, explicar imagens, usar Optical Character Recognition (OCR) para ler textos escritos à mão, entre outros.
“Computer vision” envolve o uso da IA para analisar fotos de satélite para identificar elementos, como bombas ou quadras de esporte.
“Gerar mais dados” é fazer o uso da tecnologia para criar novos dados úteis a partir de listas desorganizadas ou de um grande volume de conteúdo. O jornal usa essa metodologia para acompanhar uma série de podcasts aliados ao governo Trump.
O veículo utiliza a IA para extrair informações de arquivos, como o histórico de publicações do The New York Times, e estruturar os dados em planilhas e documentos inteligentes que podem ser acessados rapidamente e com facilidade.
“Classificação granular” envolve classificar grandes volumes de material, como transcrições de áudio, em partes para identificar temas específicos.
Já a categoria “Adicionando expertise” significa usar diversas metodologias citadas anteriormente para ajudar em projetos de larga escala e importância, como quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos liberou os documentos do caso Epstein. A equipe de jornalistas usou a IA de diversas formas para buscar informações relevantes nos documentos publicados.
“Se você for até um LLM e perguntar ‘quem matou Epstein?’, ela não vai te ajudar. Mas se você tiver um palpite e a assistência adicional de um modelo de raciocínio sobre um corpo de dados que você nunca conseguiria ler sozinho, a IA é extremamente poderosa”, colocou.
Para o editor, no jornalismo é sempre importante se perguntar as motivações para o uso da IA. “Só nos interessa usar IA como uma ferramenta a serviço de uma missão ou objetivo já existente da organização. Internamente, usamos um atalho para isso: ‘comece pelo porquê, não pela IA’. Não queremos ser um martelo de IA vendo pregos em todo lugar — esse é um risco constante para uma equipe de desenvolvimento de produtos como a nossa. Queremos exatamente o oposto: ouvir os problemas das pessoas, independentemente de a IA ter algo a oferecer ou não. Na maioria das vezes, não tem. Mas, nos casos em que tem, aí sim começamos a trabalhar”, dividiu.
Repórter: Meio & Mensagem