Chega de vergonha

(18/08) Marcelo Corrêa Petrelli, ex-presidente da ACAERT e Presidente-executivo do Grupo RIC SC

Chocou o país a posição do presidente da CUT (Cen­tral Única dos Trabalhadores), Wagner Freitas, que na quinta-feira, ao defender a permanência de Dilma Rous­seff no cargo, sugeriu um enfrentamento armado caso o mandato da presidente seja ameaçado. Ao fazer o chama­mento para ir às ruas “de armas na mão”, o sindicalista esqueceu que o Brasil é uma democracia que não permite esse tipo de delírio.

Chegamos a um ponto em que precisamos de defini­ções para que a instabilidade reinante seja substituída por um clima mais propício à governabilidade, ao trabalho, à retomada do crescimento. Isso implica cogitar o impea­chment da presidente, se houver fundamentação jurídica para isso, com o devido debate democrático e o amplo di­reito de defesa. Ao contrário, há necessidade de enten­dimento entre lideranças políticas para alcançar a gover­nabilidade e a superação do impasse que enfrentamos. É necessária a união de todos em favor do Brasil. Os políticos se iludem ao acreditarem que a população não está atenta ao que acontece em Brasília. Se os políticos continuarem com esta atitude, teremos cada vez mais Tiriricas.

Para muitos políticos, quanto pior melhor, quanto maior o desgaste do governo, melhor. Porém, é preciso pensar no prejuízo que esta postura acarreta ao país, crian­do instabilidade política e econômica. A sociedade está pagando um preço muito alto por esta irresponsabilidade. Se a presidente Dilma foi eleita pelo voto popular, antes dela outros presidentes também o foram. Todos tiveram obrigações para com a sociedade e foram julgados por ela, como no caso do ex-presidente Collor. Os líderes políticos, salvo exceções, só pensam nos próprios interesses. A eli­te brasileira tenta justificar seus erros ao dizer que “cada povo tem o governo que merece”. Isso é uma falácia: na verdade, os cidadãos é que não merecem os dirigentes que só pensam neles, sem nenhum espírito ou compromisso público. A elite brasileira tem a obrigação de encerrar já esse ciclo vergonhoso.

Também a classe empresarial, que tem o capital e entida­des fortes em defesa de seus interesses, não pode se omitir e esperar por soluções que venham de cima para baixo. Precisa participar mais, interagir, pressionar, exercer a cidadania em favor de toda a sociedade, e não apenas de suas bandeiras. Os estudantes, que no passado fizeram vigília nas ruas, pelas boas causas da população, hoje parecem estar desconectados da realidade que o país atravessa. Parece que o destino da na­ção depende de meia dúzia de iluminados de Brasília.

Se a proposta é criar trincheiras armadas nas ruas, tenho o direito de pedir ao Exército que vá para as mes­mas ruas com a função de me defender. Presente ao ato de quinta-feira, onde o destrambelhado presidente da CUT falou, a presidente Dilma perdeu a oportunidade de recha­çar a ideia do sindicalista e conclamar a nação à unidade, ao bom enfrentamento, à defesa da cidadania. Preferiu o silêncio e as palmas dos correligionários. Dilma Roussef tem três anos de mandato pela frente. Mas para retomar a governabilidade, deveria, antes de qualquer enfrentamen­to, deixar de dar ouvidos à CUT e aliados, de repelir as crí­ticas da imprensa, mudar sua postura, admitindo os erros do seu partido e do seu governo. Talvez, agindo desta for­ma, seu discurso reverberaria positivamente na sociedade, recuperando a confiança de todos, inclusive dos políticos.

Vivemos um círculo vicioso, com um modelo que não deu certo. De um lado, a classe política se beneficia des­te jogo que chantageia o governo, paralisando o país, que enfrenta uma de suas piores crises. De outro, temos uma gestão ineficiente, que não consegue atender ao cidadão, com denúncias diárias de corrupção e desvios de dinheiro público. Hoje o Brasil não está dividido em uma luta de classes, como deu a entender o presidente da CUT, no seu discurso retrógrado, mas em outro tipo de guerra surda: entre certo e errado, entre honestos e ladrões, entre cor­ruptos e não corruptos, entre impunidade e violência, en­tre funcionários públicos que trabalham e aqueles que se beneficiam das funções que exercem. Há neste meio um excesso de vantagens, privilégios e direitos exorbitantes, enquanto na iniciativa privada os trabalhadores vivem o Brasil real, sem privilégios de qualquer espécie. Essa situa­ção quebrou o Brasil.

Não vamos nos iludir achando que o fundo do poço é de barro, porque podemos levar o país a uma crise ainda mais aguda. Por opção, eu escolho o certo, o honesto, o não corrupto, o fim dos privilégios e benefícios, e proponho tolerância zero com o que não estiver correto, custe o que custar. O rigor da lei é para todos, inclusive para mim se a transgredir. Nosso país precisa de leis simples, objetivas e práticas, capazes de pôr atrás das grades os bandidos, os oportunistas, os ladrões do dinheiro público, os corruptos e corruptores. Nossos parlamentares, responsáveis por legislar, são também os responsáveis pela crise de valores que enfrentamos, porque preferem discutir o sexo dos an­jos em Brasília, dando as costas para o Brasil real.

 

Fonte: ND On Line